À medida que a indústria alimentar global enfrenta uma pressão crescente decorrente das alterações climáticas, das mudanças nas expectativas dos consumidores e da volatilidade das cadeias de abastecimento, o setor dos óleos alimentares está a passar por uma transformação significativa. A inovação, a sustentabilidade e a resiliência operacional estão a tornar-se fatores críticos de diferenciação para as empresas que navegam rápidas mudanças de mercado e exigências globais em evolução.
João Miguel Antunes, Managing Partner da Kestria Portugal, Thrive Partners, entrevistou Jorge de Melo, CEO do Grupo Sovena, sobre as dinâmicas em evolução do mercado global de óleos alimentares, o papel da sustentabilidade e da inovação no agribusiness, e os princípios de liderança necessários para navegar um setor cada vez mais exigente e em rápida transformação. A conversa explorou também como as empresas do setor estão a equilibrar escala global com adaptação local, enquanto investem em resiliência, tecnologia e criação de valor a longo prazo.
Construir um líder global no mercado de azeite e óleos alimentares
Estudos recentes apontam para um crescimento sustentado no mercado global de óleos alimentares. Como interpreta esta tendência e que implicações tem para o posicionamento estratégico da Sovena?
A evolução do setor dos óleos alimentares está ligada a tendências estruturais como o crescimento populacional, o aumento do poder de compra e um maior acesso a produtos alimentares. Este contexto tem contribuído para uma expansão global do consumo, ainda que num ambiente altamente volátil, fortemente influenciado por fatores climáticos e geopolíticos.
Neste cenário, a Sovena posiciona-se como um player relevante nos segmentos de óleos alimentares e azeite, com uma forte presença internacional e um foco particular em geografias estratégicas como a Península Ibérica, África e América do Sul. A nossa escala, o controlo ao longo da cadeia de valor e a capacidade de adaptação permitem-nos responder a diferentes dinâmicas de mercado e reforçar a nossa competitividade.
A Sovena opera atualmente em múltiplas categorias — do azeite aos óleos vegetais e ao óleo de abacate. Como define o vosso papel neste ecossistema mais amplo de “gorduras e óleos”?
A Sovena é uma empresa portuguesa com atuação global no segmento das gorduras alimentares, com uma abordagem focada na qualidade, competitividade e alinhamento com as necessidades dos consumidores. Ao longo dos anos, consolidámos uma forte presença tanto no azeite como nos óleos vegetais, procurando responder às necessidades dos consumidores de forma mais saudável e competitiva, oferecendo simultaneamente um portefólio diversificado adaptado a diferentes mercados.
Acompanhamos de perto a evolução destas categorias e das preferências dos consumidores. Nesse sentido, procuramos trazer as melhores soluções para o mercado e temos vindo a explorar novas áreas, como o óleo de abacate, sempre com foco na complementaridade e na criação de valor sustentável.
Enquanto player global com fortes raízes em Portugal, como equilibram a escala internacional com a necessidade de adaptação às especificidades locais?
A escala internacional é essencial para garantir competitividade e um nível de serviço que poucos concorrentes conseguem igualar, permitindo simultaneamente acompanhar de perto a inovação no nosso setor.
Ao mesmo tempo, acreditamos que a adaptação local é crítica para o sucesso. Cada mercado tem as suas próprias características e padrões de consumo, pelo que procuramos desenvolver soluções ajustadas a essas realidades. Por exemplo, um consumidor brasileiro procura azeite para utilizações diferentes de um consumidor espanhol, e um consumidor Fula em Portugal utiliza óleo de forma muito diferente de um consumidor Fula em Angola. As empresas têm de ser capazes de se adaptar a cada mercado. É esta combinação de uma visão global com execução local que nos permite responder de forma eficiente a mercados muito distintos.
Sustentabilidade, integração vertical e resiliência no agribusiness
Em que medida a integração vertical ao longo de toda a cadeia de valor tem sido crítica para garantir qualidade, flexibilidade e competitividade?
A integração vertical é um dos principais fatores diferenciadores da Sovena. Permite-nos operar ao longo de toda a cadeia de valor, assegurando consistência na qualidade, flexibilidade operacional e maior capacidade de resposta ao mercado.
Esta abordagem, combinada com a nossa presença global, permite-nos servir diferentes geografias e consumidores de forma consistente, mesmo num contexto exigente e incerto, como demonstrado por períodos recentes de significativa instabilidade geopolítica.
Num setor cada vez mais exposto às alterações climáticas e a disrupções geopolíticas, como tem evoluído a vossa abordagem à gestão de risco e adaptação rápida?
O setor agroalimentar tem estado particularmente exposto à instabilidade, desde desafios relacionados com o clima até tensões geopolíticas e disrupções nas cadeias de abastecimento.
A nossa abordagem centra-se no reforço da resiliência do negócio, nomeadamente através da diversificação de mercados, otimização das cadeias de abastecimento e melhoria da eficiência operacional. Ao mesmo tempo, temos vindo a integrar cada vez mais a sustentabilidade e a inovação nos nossos processos de decisão, o que nos permite preparar melhor a organização para responder a estes desafios.
A escassez de recursos, em particular a água, é uma questão crítica. Como equilibram a produtividade com a preservação do solo e da biodiversidade a longo prazo, e de que forma isso influencia as vossas decisões agrícolas e de investimento?
A gestão eficiente dos recursos naturais é central para a nossa operação. Trabalhamos com práticas agrícolas que promovem uma utilização mais eficiente dos recursos e uma abordagem responsável à produção.Isto inclui, por exemplo, o uso de dados em tempo real — como a monitorização da humidade do solo, condições meteorológicas e estado hídrico das plantas — para ajustar e otimizar os planos de rega.
Ao mesmo tempo, promovemos práticas que asseguram a preservação do solo e da biodiversidade, procurando sempre um equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade a longo prazo. Complementamos estas práticas com uma abordagem de economia circular, nomeadamente através da valorização de subprodutos agrícolas, como o caroço de azeitona, contribuindo para a redução do impacto ambiental. Estas dimensões são parte integrante das nossas decisões agrícolas e de investimento.
Agricultura de precisão, dados e IA na produção alimentar
Onde têm observado maior impacto da inovação — na agronomia, eficiência industrial ou desenvolvimento de produto — e quais são hoje as principais prioridades da Sovena, particularmente em áreas como agricultura de precisão, dados e IA?
A inovação tem um impacto transversal na atividade da Sovena, refletindo-se ao longo de toda a cadeia de valor.
Na agricultura, verifica-se uma crescente integração de dados na gestão das operações, nomeadamente através da monitorização de variáveis como a humidade do solo, condições meteorológicas e estado hídrico das plantas, permitindo uma gestão de recursos mais eficiente e ajustada.
Ao nível industrial e operacional, a inovação traduz-se no aumento da eficiência e na melhoria contínua dos processos, enquanto na dimensão de produto se materializa na adaptação da oferta às necessidades do mercado.
Mais do que um domínio específico, a inovação é hoje um elemento estrutural na forma como a Sovena gere as suas operações e se posiciona para o futuro.
Olhando para o futuro, onde vê as maiores oportunidades de criação de valor no setor dos óleos alimentares e ingredientes alimentares?
Sabemos que os hábitos alimentares dos consumidores evoluem ao longo do tempo. No entanto, existem variáveis que serão sempre importantes: sabor e saúde. Acredito que estamos nas categorias certas para continuar a investir e criar valor para a empresa e para os seus stakeholders.
Liderança e criação de valor a longo prazo
Num setor global, exigente e em rápida evolução, que princípios de liderança considera críticos para garantir execução consistente, alinhamento das equipas e criação de valor sustentável a longo prazo?
Acredito que a liderança deve assentar em três princípios fundamentais: clareza de direção, consistência na execução e capacidade de adaptação. Em contextos de incerteza, é essencial que as organizações saibam para onde vão, quais são as suas prioridades e como traduzir a estratégia em ação, assegurando alinhamento interno, disciplina operacional e consistência na tomada de decisão.
Esta consistência só é possível quando existe um investimento claro nas pessoas. O desenvolvimento de competências, a aprendizagem contínua, o bem-estar e a inclusão são hoje dimensões críticas para preparar as equipas para responder aos desafios de uma economia em transformação.
Enquanto membro do Conselho da Business Roundtable Portugal (BRP), partilho a convicção de que o crescimento económico de Portugal começa nas pessoas — no seu desenvolvimento, preparação e capacidade de contribuir para organizações mais competitivas e sustentáveis. Em última análise, a liderança passa por criar as condições para que as equipas estejam alinhadas, capacitadas e motivadas para gerar valor a longo prazo.
Factos interessantes
- Em 2023, a Sovena expandiu-se para o óleo de abacate através de uma unidade de extração dedicada na Colômbia, diversificando para além dos tradicionais azeites e óleos vegetais.
- A Sovena gere também operações agrícolas de grande escala em olivais, culturas de sementes oleaginosas e amendoal.
- A estratégia agrícola da Sovena é fortemente orientada pela tecnologia, combinando agricultura de precisão, monitorização por drones e satélite, rega inteligente, análise preditiva e testes de novas variedades de culturas.
- A sustentabilidade é um foco central, suportado por 98% de eletricidade renovável a nível global, certificação FSA Gold em todas as explorações agrícolas e formação em sustentabilidade para mais de 90% dos gestores.
- Várias marcas da Sovena ocupam posições de liderança nos seus mercados, incluindo a Oliveira da Serra, a marca portuguesa de azeite mais premiada globalmente, a Fula em Portugal e a Andorinha no Brasil.
O Grupo Sovena é uma empresa portuguesa de agribusiness e alimentar reconhecida como um dos principais players mundiais no azeite e óleos alimentares, operando ao longo de toda a cadeia de valor — desde a agricultura e aprovisionamento até à extração, refinação, embalagem e distribuição global. Com mais de 1,6 mil milhões de euros de faturação, operações em 5 continentes e exportações para mais de 70 países, o grupo combina escala internacional com fortes marcas locais como Oliveira da Serra, Fula e Andorinha. A Sovena é também o maior fornecedor mundial de azeite de marca própria e tem vindo a expandir-se para além dos óleos tradicionais para áreas como o óleo de abacate, agricultura de precisão e produção alimentar sustentável, suportada por um forte foco na inovação, tecnologia e práticas orientadas por ESG.


